Quando ocorre um incêndio em uma residência, comércio ou indústria, uma das primeiras explicações que costuma aparecer é: “foi um curto-circuito”.
É uma associação bastante comum. O problema é que, tecnicamente, essa conclusão nem sempre é tão simples.
Em uma perícia de incêndio, encontrar cabos queimados, componentes derretidos ou um quadro elétrico bastante danificado não significa, por si só, que o incêndio teve origem elétrica.
Em muitos casos, esses elementos foram atingidos pelo fogo depois que o incêndio já havia começado em outro ponto.
E essa diferença é fundamental.
O que queimou nem sempre foi o que iniciou o incêndio
Depois de um incêndio, praticamente tudo o que está próximo ao foco pode apresentar danos severos.
Fiação elétrica, tomadas, equipamentos e quadros de distribuição podem sofrer deformações, carbonização e perda de isolamento simplesmente porque foram expostos a temperaturas muito elevadas.
Por isso, a análise pericial precisa tentar separar dois pontos diferentes:
o dano provocado pelo incêndio e o mecanismo que efetivamente iniciou o incêndio.
Não é porque um cabo está completamente queimado que ele necessariamente apresentou uma falha elétrica antes do fogo.
Existem várias causas possíveis
Mesmo quando a origem realmente está relacionada à instalação elétrica, o conhecido “curto-circuito” é apenas uma das possibilidades.
Um incêndio pode estar relacionado, por exemplo, a:
- sobrecarga elétrica;
- conexões frouxas e mau contato;
- aquecimento excessivo;
- falhas de isolamento;
- defeitos em equipamentos;
- dimensionamento inadequado da instalação;
- ausência ou falha de dispositivos de proteção.
E também pode acontecer de a instalação elétrica não ter relação alguma com a origem do evento.
Por isso, atribuir rapidamente um incêndio a um curto-circuito pode levar a uma conclusão equivocada.
A perícia busca reconstruir o evento
O trabalho pericial não consiste apenas em observar os danos existentes.
É necessário analisar a distribuição dos vestígios, as marcas de queima, os equipamentos envolvidos, as condições da instalação, os relatos disponíveis e, sempre que possível, reconstruir a sequência dos acontecimentos.
A pergunta principal deixa de ser simplesmente:
“O que estava queimado?”
e passa a ser:
“Onde o incêndio começou e qual foi o mecanismo que deu início ao evento?”
Essa reconstrução é o que permite diferenciar uma causa provável de uma simples consequência do incêndio.
Por que isso importa?
Essa diferenciação pode ter impacto direto em discussões envolvendo:
responsabilidade civil, cobertura securitária, direito de regresso, responsabilidade de fabricantes, prestadores de serviço, proprietários ou responsáveis pela manutenção de uma instalação.
Imagine, por exemplo, um equipamento elétrico encontrado completamente destruído dentro de uma área incendiada.
Sem uma análise mais aprofundada, seria fácil concluir que o equipamento provocou o incêndio.
Mas a perícia pode indicar justamente o contrário: o incêndio pode ter começado em outro local e apenas atingido esse equipamento posteriormente.
A consequência jurídica dessa diferença pode ser enorme.
Engenharia pericial é investigação técnica
Em muitos trabalhos periciais, o maior desafio não é identificar aquilo que está visivelmente danificado.
É compreender a sequência dos fatos.
No caso de incêndios, isso significa avaliar os vestígios disponíveis e buscar uma explicação tecnicamente coerente para a origem e para a propagação do fogo.
Nem sempre será possível determinar a causa com absoluta certeza.
Mas uma análise técnica bem conduzida permite afastar hipóteses incompatíveis, identificar cenários mais prováveis e fornecer elementos objetivos para a tomada de decisão.
Por isso, diante de um incêndio, afirmar que “foi um curto-circuito” pode até parecer uma explicação simples.
Na prática, porém, a engenharia pericial precisa responder uma pergunta muito mais importante:
onde e como esse incêndio realmente começou?